Solilóquio





Solilóquio

Talvez os imensos limites da pátria me lembrem os puros
E amargue em meu coração a descrença.
Sinto-me tão cansado de sofrer, tão cansado! – algum dia, em alguma parte
Hei de lançar também as âncoras das promessas 
Mas no meu coração intranqüilo não há senão fome e sede 
De lembranças inexistentes. 


O que resta da grande paisagem de pensamentos vividos

Dize, minha alma, senão o vazio? 
São verdades as lágrimas, os estremecimentos, os tédios longos 
As caminhadas infinitas no oco da eterna voz que te obriga?
E no entanto o que crê em ti não tem o teu amor aprisionado 
Escravo de fruições efêmeras... 


Ah, será para sempre assim... o beijo pouco do tempo

Na face presa da eternidade
E em todos os momentos a sensação pobre de estar vivendo
E ter em si somente o que não pode ser vivido 
E em todos os momentos a beleza, e apenas
Num só momento a prece...



Nunca me sorrirão vozes infantis no corpo, e quem sabe por tê-las

Muito ardentemente desejado... 
Talvez os limites da pátria me lembrem os puros e enlouqueça
Em mim o que não foi da carne conquistado. 
Muitas vezes hei de me dizer que não sou senão juventude 
No seio do pântano triste. 


Quero-te, porém, vida, súplica! o medo de mim mesmo 

Não há na minha saudade.
É que dói não viver em amor e em renúncia
Quando o amor e a renúncia são terras dentro de mim
E uma vez mais me deitarei no frio, guia de luz perdido
Sem mistérios e sem sombra.



Bem viram os que temeram a minha angústia e as que se disseram: 

- Ele perdeu-se no mar! 
No mar estou perdido, sem céu e sem terra e sem sede de água 
E nada senão minha carne resiste aos apelos do ermo... 
O que restará de ti, homem triste, que não seja a tua tristeza
Fruto sobre a terra morta... 


Não pensar, talvez... Caminhar ciliciando a carne 

Sobre o corpo macerado da vida 
Ser um milhão na mesma cidade desabitada



E sendo apenas um, ir acordando o amor e a angústia

E da inquietação vinda e multiplicada, arrancar um riso sem força
Sobre as paisagens inúteis.



Mas, oh, saber... – saber até o fundo do conhecimento 

Sobre as aves e os lírios! 
Saber a pureza bailando o pensamento como um gênio perfeito
E na alma os cantos límpidos e os vôos de uma poesia!
E nada poder, nada, senão ir e vir como a sombra do condenado
Pelo silêncio em escuta... 


E não sou um covarde... – sofro pelas manhãs e pelas tardes

E pelas noites desvaneço... 
No entanto, é covarde que me sinto no olhar dos que me amam 
E no prazer que arranco cem vezes da carne ou do espírito que quero
Ai de mim, tão grande, tão pequeno... – e quando o digo intimamente!
E em ambos, sem pânico...



E me pergunto: Serei vazio de amor como os ciprestes

No seio da ventania?
Serei vazio de serenidade como as águas no seio do abismo
Ou como as parasitas no seio da mata serei vazio de humildade?
Ou serei o amor eu mesmo e a calma e a humildade eu mesmo
No seio do infinito vazio? 


E me pergunto: O que é o perigo, onde a sua fascinação profunda

E o gosto ardente de morrer?
Não é a morte o meu voto murmurante
Que caminha comigo pelas estradas e adormece no meu leito? 
O que é morrer senão viver placidamente 
Na imutável espera?



Nada respondo – nada responde o desespero 

Solidão sem desvario. 
Mas resta, resta a ânsia das palavras murmuradas ao vento 
E a emoção das visões vividas no seu melhor momento 
Resta a posse longínqua e em eterna lembrança 
Da imagem única.



Resta?... Já me disse blasfêmias no âmago do prazer sentido

Sobre o corpo nu da mulher 
Já arranquei de mim mesmo o sumo da sabedoria
Para fazê-lo vibrar dolorosamente à minha vontade
E no entanto... posso me glorificar de ter sido forte
Contra o que sempre foi?



Hão de ir todos, todos, para as celebrações e para os ritos

Ficarei em casa, sem lar
Hei de ouvir as vozes dos amantes que não se entediam



E dos amigos que não se amam e não lutam

As portas abertas, à espera dos passos do retardatário 
Não receberei ninguém. 


Talvez nos imensos limites da pátria estejam os puros 

E apenas em mim o ilimitado...
Mas oh, cerrar os olhos, dormir, dormir longe de tudo 
Longe mesmo do amor longe de mim!
E enquanto se vão todos, heróicos, santos, sem mentira ou sem verdade 
Ficar, sem perseverança...

Vinicius de Moraes




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